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Soro de leite ganha valor estratégico na corrida global por proteínas

Investimentos de grandes grupos mostram que o soro deixou de ocupar um papel secundário e passou a influenciar decisões sobre tecnologia, capacidade e novos produtos.

A demanda por alimentos com maior teor de proteínas está mudando o valor do soro de leite para a indústria. O líquido gerado durante a fabricação de queijos, antes direcionado principalmente à alimentação animal ou a produtos de menor valor, agora alimenta um mercado de ingredientes especializados.

Concentrados e isolados proteicos aparecem em bebidas, barras, iogurtes, suplementos, fórmulas nutricionais e produtos voltados ao envelhecimento saudável. Com isso, grandes grupos internacionais ampliam sua capacidade de processar o soro e recuperar seus componentes.

A mudança não elimina o papel do queijo. No entanto, faz com que as empresas considerem o potencial do soro antes mesmo de decidir onde instalar ou ampliar uma queijaria.

Demanda por proteína muda a economia do soro

O interesse por proteínas cresceu além do mercado tradicional de suplementos esportivos. Hoje, o consumidor encontra produtos enriquecidos em diferentes categorias, como bebidas, cereais, pães, snacks e lácteos refrigerados.

A busca por conveniência, manutenção da massa muscular e envelhecimento saudável ajuda a sustentar esse movimento. Além disso, o avanço dos medicamentos para perda de peso da classe dos GLP-1 abriu uma nova frente para produtos nutricionalmente densos.

Esse cenário pressionou a oferta internacional de proteínas do soro.

Segundo dados do mercado europeu citados pelo Financial Times, o preço de referência do WPC80 chegou a aproximadamente €23,88 por quilo em setembro de 2026. Dois anos antes, o valor estava próximo de €6,48.

O isolado proteico também apresentou forte valorização. O preço passou de cerca de €8,35 para €30,75 por quilo no mesmo período.

Esses números mostram que o mercado não remunera apenas o volume de soro. Ele valoriza a capacidade de separar, concentrar, padronizar e entregar proteínas com funcionalidades específicas.

FrieslandCampina amplia investimentos em proteínas do soro

Em maio de 2026, a FrieslandCampina anunciou um programa de investimentos superior a €90 milhões. O objetivo é ampliar a produção de proteínas de alto valor em unidades localizadas nos Países Baixos.

O projeto inclui atualizações tecnológicas nas fábricas de Bedum, Veghel e Workum. As melhorias devem aumentar a produção de WPC80, proteínas instantâneas e ingredientes proteicos microparticulados.

Esses ingredientes atendem principalmente aos mercados de nutrição esportiva, alimentação infantil, nutrição médica e produtos enriquecidos.

Além disso, a companhia concluiu, em março de 2026, a ampliação de sua unidade de Borculo. O projeto dobrou a capacidade de produção de isolado proteico de soro e de ingredientes derivados da membrana do glóbulo de gordura do leite.

A empresa também adquiriu a Wisconsin Whey Protein, nos Estados Unidos. A operação fortaleceu o acesso da FrieslandCampina ao soro e aumentou sua capacidade de fornecer isolados proteicos.

O conjunto de investimentos mostra uma estratégia clara: transformar uma corrente gerada na fabricação de queijos em um portfólio de ingredientes especializados.

Arla amplia capacidade e acesso à matéria-prima

A Arla Foods Ingredients segue uma estratégia semelhante.

Em 2024, a empresa avançou na aquisição da divisão de nutrição de soro da Volac. A operação incluiu uma unidade no País de Gales especializada na produção de whey protein isolate, conhecido como WPI.

A fábrica também produz concentrado de gordura do soro e lactose. Dessa forma, a empresa busca aproveitar diferentes componentes da matéria-prima, não apenas a proteína.

Segundo a Arla, a demanda por WPI nos segmentos de saúde e nutrição esportiva apresentou crescimento médio anual de 9% entre 2010 e 2023.

Já em 2025, a companhia firmou um acordo com a processadora norte-americana Valley Queen. A parceria ampliou a capacidade de produzir concentrados proteicos microparticulados para alimentos e bebidas.

Esses ingredientes permitem elevar o teor de proteína sem comprometer características como sabor e textura. Portanto, seu valor não está apenas na quantidade de proteína, mas também na funcionalidade durante a formulação.

Quanto soro a fabricação de queijo pode gerar?

O volume envolvido ajuda a explicar o interesse da indústria.

De acordo com publicação da Embrapa, a fabricação de um quilo de queijo gera, em média, cerca de nove litros de soro. O valor pode variar conforme o produto, a matéria-prima e o processo adotado.

O soro contém água, lactose, proteínas, minerais, vitaminas e pequenas quantidades de gordura. Entretanto, esses componentes aparecem diluídos.

Por isso, transformar o líquido em um ingrediente comercial exige uma sequência de operações. A empresa precisa preservar a qualidade desde a saída da queijaria e controlar tempo, temperatura e condições sanitárias.

Um soro com alta carga microbiana ou composição instável limita as possibilidades de aplicação. Consequentemente, a valorização começa antes da etapa de concentração.

Como o soro se transforma em WPC e WPI?

A produção de ingredientes proteicos costuma envolver processos de clarificação, remoção de gordura, tratamento térmico e separação por membranas.

Na ultrafiltração, as membranas retêm as proteínas e permitem a passagem de componentes menores. A fração concentrada recebe o nome de retentado. Já a corrente que atravessa a membrana forma o permeado, rico principalmente em lactose e minerais.

O processamento pode gerar diferentes ingredientes:

  • WPC: concentrado proteico de soro, com diferentes níveis de proteína;
  • WPC80: concentrado que possui aproximadamente 80% de proteína na matéria seca;
  • WPI: isolado proteico com maior grau de purificação;
  • Proteínas microparticuladas: ingredientes desenvolvidos para entregar proteína e modificar textura;
  • Soro em pó: produto obtido após concentração e secagem;
  • Lactose e permeados: correntes que podem seguir para aplicações alimentícias ou biotecnológicas.

Após a separação, a indústria pode concentrar o produto por evaporação ou outras tecnologias. Em seguida, a secagem por atomização transforma a corrente líquida em pó.

Cada etapa interfere na solubilidade, no sabor, na estabilidade térmica e na funcionalidade da proteína. Por isso, o processo precisa acompanhar a aplicação final.

O valor do soro não termina na proteína

A recuperação das proteínas não resolve, sozinha, o aproveitamento completo do soro.

O permeado gerado pela ultrafiltração ainda concentra lactose, minerais e outros compostos. Sem uma destinação adequada, essa corrente pode manter uma carga orgânica relevante.

Por outro lado, a indústria pode utilizar o permeado na produção de lactose, ácido lático, bioplásticos, energia, ingredientes alimentícios e outros bioprodutos.

Portanto, uma estratégia eficiente precisa considerar todas as frações. Caso contrário, a empresa apenas transfere o desafio ambiental de uma corrente para outra.

Essa análise também deve incluir consumo de água, energia, limpeza, armazenamento e transporte. Quanto maior a distância entre a produção do soro e a unidade de processamento, maior tende a ser o impacto logístico de transportar um produto composto principalmente por água.

Oportunidade para os laticínios brasileiros

O crescimento do mercado internacional abre uma discussão relevante para o Brasil.

O país possui uma indústria de queijos diversificada e, consequentemente, gera volumes expressivos de soro. No entanto, transformar essa corrente em WPC ou WPI exige escala, regularidade e investimentos elevados.

Nem todo laticínio precisa instalar uma estrutura própria de concentração e secagem. Em alguns casos, parcerias entre empresas, unidades centralizadas ou a venda do soro refrigerado para processadores especializados podem apresentar maior viabilidade.

Antes de investir, a indústria precisa avaliar:

  • Volume diário e regularidade da geração de soro;
  • Tipo de queijo produzido e características do soro;
  • Qualidade microbiológica da matéria-prima;
  • Distância até a unidade de processamento;
  • Mercado para proteínas, lactose e permeados;
  • Necessidade de membranas, evaporação e secagem;
  • Consumo de água e energia;
  • Destinação das correntes restantes;
  • Exigências sanitárias e comerciais do produto final.

Assim, o projeto deve partir do mercado que a empresa pretende atender. A tecnologia entra depois dessa definição.

Tendência exige estratégia, não apenas tecnologia

O soro de leite ganhou valor porque a indústria aprendeu a separar seus componentes e conectá-los a mercados com maior potencial.

Entretanto, a valorização não acontece automaticamente. Ela depende da qualidade da matéria-prima, da escala, da estrutura disponível e de compradores para todas as correntes geradas.

Os investimentos de FrieslandCampina e Arla indicam que a demanda por proteínas continuará influenciando a indústria de laticínios. Para o Brasil, a tendência cria oportunidades tanto na produção de ingredientes quanto no desenvolvimento de alimentos enriquecidos.

O soro continua sendo uma consequência da fabricação de queijos. O que mudou foi a capacidade de enxergar, processar e comercializar o valor que existe dentro dele.

Com mais de 45 anos de experiência a Geiger possui um portfólio amplo de soluções para atender o setor de laticínios, indústrias alimentícias, cozinhas industriais, restaurantes, lanchonetes, confeitarias e muito mais.
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